terça-feira, 29 de março de 2011

Cana-verde

A cana-verde é uma dança de origem portuguesa, adaptou-se, como outras manifestações, à região em que se enraizou e adquiriu características próprias no Brasil. Faz parte dos fandangos dos estados de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.
São duas rodas, uma de homens, outra de mulheres, que dançam em sentido contrário. Sem se tocarem, revezam de lugar, formando novo par. Cada vez que se defrontam, dão uma batida de palmas. Quando os pares mudam durante a dança inteira, esta tem o nome de cana-verde-de-passagem (Minas Gerais).


A melodia é em forma estrófica, sem refrão, cantada de improviso por dois violeiros, como num desafio. Qualquer figurante, porém, no decorrer da dança, pode tirar versos, que são respondidos em coro pelos dançadores. O canto é em terças, e as músicas habitualmente são em compasso 2/4.

Em Parati RJ existem dois tipos de cana-verde: a valsada de par e a marcada. Embora quase não difiram musicalmente, são dançadas de maneira distinta. Na primeira, aparecem pares enlaçados, como nas valsas, enquanto a cana-verde marcada mais se assemelha à quadrilha ou à ciranda, com violeiros e pandeiristas cantando ao centro da roda formada pelos dançarmos. A marcação da dança é feita pelo violeiro principal, que vai ordenando aos participantes as figurações coreográficas, como “caminho da roça”, “cavalheiro com a dama”, “anavâm” (do francês en avant), “changê” (do francês changer) etc.

A caninha verde

Entre as danças das zonas canavieiras, do norte e do sul, a caninha verde parece a mais antiga. Aclimatou-se de tal jeito que já diversos folcloristas brasileiros chegaram a sustentar que essa dança nasceu no Brasil. A verdade é que essa tradição coreográfica veio-nos de Portugal, lá do Minho.

É dança cantada como, em geral, são as danças populares. Correm inúmeras versões dos cantos; a mais tipicamente minhota é a seguinte, que foi publicada na coletânea Danças e cantares portugueses, editada no Porto:

Oh minha caninha verde
Oh meu senhor do Bonfim
Linda cara, lindos olhos,
Virem-se cá para mim
A-i-ó-ai!
Oh meu senhor do Bonfim
Lindos olhos, linda cara
Virem-se cá para mim.

Oh minha caninha verde
Oh meu Senhor do Padrão
Quem não quer que o mundo fale
Não lhe dê ocasião.
A-i-ó-ai!
Não lhe dê ocasião
Oh minha caninha verde
Oh meu Senhor do Padrão.

Oh minha caninha verde
Verde cana de encanar
Aqui estou à tua beira
Quem ‘stá bem deixa-me estar
A-i-ó-ai!
Quem ‘stá bem deixa-se estar
Oh minha caninha verde
Verde cana de encanar.

A cana verde no mar
Anda à roda do vapor
Inda está para nascer
Quem há de ser meu amor
A-i-ó-ai!
Quem há de ser meu amor
A cana verde do mar
Anda à roda do vapor.

Outras variantes portuguesas encontram-se no formoso livro O que o povo canta em Portugal, de Jaime Cortesão, e na coleção Serenatas de João de Souza Conegundes.

A disseminação da caninha verde é tão grande em terras portuguesas que seus versos andam soltos no meio das quadras populares, conforme se vê no Cancioneiro de Santo Tirso (Revista Lusitana, v.18, nº 3-4), onde Augusto C. Pires de Lima coligiu as seguintes:

Ó minha caninha verde
Ah! ah! olaré qui atacho (cartaxo)
Caiu o burro com os ovos
Tudo são gemas por baixo.
(p. 315)

A cana verde no mar
Navega por aí além;
Foi palavra que Deus disse:
Quem tudo quer, nada tem.
(p.318)

A cana verde no mar
Navega e não vai ao fundo;
Indas que eu queira não posso
Tapar a boca do mundo.
(Ibidem)

É claro que, dada essa larga popularidade da cana verde em Portugal, os imigrantes portugueses trouxeram essa dança para o Brasil, onde, aliás, desde os tempos coloniais, é muito grande o número de minhotos. No meio rural brasileiro por um fácil processo de adaptação, a dança localizou-se nas zonas da cana-de-açúcar, assumindo novas variantes de versos, identificados com a paisagem local. No Nordeste, a caninha verde foi dançada, mas cedeu lugar às coreografias mestiças. Lá no distante Oeste, em Goiás, ainda persiste. É o que revela A. Americano do Brasil, no Cancioneiro de trovas do Brasil Central:

“Cana verde. É a mesma dança tão conhecida no litoral e oriunda de Portugal. A diferença está unicamente nos versos que os sertanejos modificaram e aumentaram conforme a exigência do meio.”

É este folclorista goiano que registra a variante:

Eu pisei na cana verde
Bem na flor da minha idade,
Arriscando a minha vida
Pra te fazer a vontade.
(obra cit., p.225)

Onde, porém, a caninha verde adquiriu forte colorido regional foi no sul, no estado do Rio de Janeiro. De tal modo se apresenta aclimada que o folclorista que a observou, Luciano Gallet, chegou a acreditar que se tratava de uma dança nascida aqui, no Brasil.

O registro de Gallet é tecnicamente perfeito, só faltando o documento mecanográfico do som e o documento cinematográfico da dança.

Dá, porém, a notação musical (figura 1), reproduz os versos locais, recolhidos na fazenda de São José da Boa Vista, em julho de 1937, e descreve pormenorizadamente os instrumentos musicais e a coreografia.

Os versos fazem pensar numa dança local:

Caninha verde
Oh! minha caninha verde
Por causa da cana verde
Que é triste meu padecer.

Plantei cana
Na beira do Piraí
E a “marvada” foi ingrata,
Plantei ela não brotou.

A descrição é precisa: “Instrumentos — só 1 viola (de 12 cordas com o cantador que também dança). Se houver 2 cantadores, 2 violas.

Aí cantam versos de mano, como no cateretê. O desafio não é permitido. É só para inimigos. Figurantes: 2 círculos de 4 pessoas com 2 pares em cada círculo (roda). Os pares, frente a frente. Chama-se esta a caninha verde de oito.

Havendo mais gente, organizam-se mais rodas, sempre com 4 pessoas (2 pares em cada roda). A dança: I — O cantador canta o verso e os pares alternam os lugares fronteiros, dançando. II — Acabado o verso, repete só a melodia, e os figurantes batem o pé.

Nota: Se os dançarinos forem práticos, no momento do canto (dança), alternam os pares com outra roda. O cantador alterna à vontade. Quando houver 2 cantadores, fica um em cada roda.

Resumo. Durante o canto: dança e passa de lugares. Terminado o canto (só música) batem os pés.” (Estudos de folclore)

Fazendo a exegese da dança, Gallet levanta a conjectura de ser criação nacional, baseado nos seguintes argumentos:

“Lembra esta dança a cana verde portuguesa. Mas:

a) a cana verde é antiga naquela zona do estado do Rio;
b) Antoniozinho (o informante) diz que era dançada assim por ali;
c) os versos falam da cana marvada plantada na beira do Piraí (rio local);
d) aquela zona é grande produtora de cana.

Por que esta dança não seria brasileira adotada em Portugal?

Em Portugal, dançam a cana verde nas colheitas de trigo.

Acredito que a cana verde seja daqui.” (obra cit., p.73)

Renato Almeida na História da música no Brasil, obra monumental no gênero, apóia a hipótese de Luciano Gallet, achando-a “verossímil”. Os argumentos do saudoso musicólogo não são, todavia, consistentes. A expressão cana verde, no idioma português, não é exclusivo da cana-de-açúcar; refere-se também à cana-do-trigo, à cana-da-cevada etc. No Brasil, é que o vocábulo cana e a expressão cana verde adquiriram a restrição semântica de só se referir à cana-de-açúcar. Os versos, em que se alude a Piraí, não são suficientes para garantir que a dança tenha tido origem local. A sua estrutura coreográfica é legitimamente portuguesa, minhota. Se em nosso meio rural, a dança aclimatou-se, com versos regionais, no meio urbano, a “caninha verde” ficou restrita unicamente aos colonos portugueses. Temos frisante exemplo no registro que Melo Morais Filho faz em Festas e tradições do Brasil, fixando a tradicional festa da Penha na cidade do Rio de Janeiro.

Era uma festa tipicamente portuguesa na época em que ele a observou.

E assim salienta:

“Nas romarias da Penha o elemento predominante foi sempre o português. Desde o período colonial até hoje a tradição tem sido mantida como uma recordação das festas congêneres da antiga metrópole, notando-se, porém, que os foliões aqui eram na generalidade filhos do continente.” (obra cit., p.143)

E logo adiante registra os cantos da “cana verde”, obedecendo até à pronúncia minhota:

Ó minha caninha berde
Ó meu santo de pedrão
Por amor de uma menina
Fui cair no alçapão.

Cana berde salteada
Salteada é mais bonita
Pra cantar a cana berde
Não se quer folhas de chita.

Fui-me ao Porto, fui-me ao Minho
De caminho pra Braga
Dizei-me, minha menina,
Que queres qu’eu de lá traga.
(obra cit., p.150)

No meio urbano, a caninha verde conservou-se na sua pureza original, minhota. Até o vinho da terra, o saboroso vinho de Portugal, não era esquecido:

“Os rapazes ostentavam a tiracolo enorme e pesado chifre chapeado de prata e cheio de vinho.” (obra cit., p.149)

E não era de estranhar.

A caninha verde parece ter surgido nas zonas vinícolas do Minho. É esta, aliás, a opinião autorizada do filólogo Gonçalves Viana, nas Apostilas aos dicionários portugueses. (tomo 1, p.217)

E reforça ainda: em Portugal dá-se o nome de cana verde aos vinhos produzidos por vinhas doentes. Este significado, frisa o lingüista lusitano, “talvez possa aclarar o nome que puseram à cantiga minhota”.

É uma hipótese defensável, mas não é a única que pode ser sugerida. Convém lembrar que, em Portugal, havia um instrumento musical, popular, chamado cana e que era, segundo Morais, “flauta rústica ou assovio feito de cana-de-cevada”.

Possivelmente dançava-se, primitivamente, a caninha verde ao som dessa flauta singela. Há exemplos da variação do nome do instrumento musical para o nome da dança, ex.: caxambu; coco, etc.

Outra hipótese (esta mais complexa) é a semelhança da coreografia da dança com o jogo das canas (na Espanha, juego de canas); no jogo eqüestre como na “caninha verde” os pares se alternam, sendo indispensáveis quatro figurantes pelo menos.

Seria possível que a dança fosse uma adaptação do jogo eqüestre?

É impossível responder.

Em nosso meio rural, a dança minhota adaptou-se. E não ficou restrita apenas às zonas canavieiras; foi além; chegou à zona cafeeira e no alto sertão. Em São Paulo encontram-se exímios dançadores da “caninha verde” como ficou patenteado no festival folclórico do 1º Congresso de Folclore Brasileiro, reunido no Rio de Janeiro, onde Rossini Tavares trouxe um grupo para demonstraçao.

Para nossos roceiros, a caninha verde é assim chamada por causa da “caninha” (sinônimo popular da cachaça).

A tradição da origem já desapareceu.

(Ribeiro, Joaquim. Os brasileiros. Rio de Janeiro, Pallas; MEC, 1977, p.205-212)

Fontes: Enciclopédia da Música Brasileira; Jangada Brasil; http://godap.vilabol.uol.com.br/dancas.htm.

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